sexta-feira, 12 de maio de 2017

Saturno: the precious stone


havia um barco e uma gaivota e havia o som do mar.
Havia luz e havia vento e eu mergulhei no teu olhar
havia o cheiro a maresia e nuvens brancas a passar
havia um sol que era magia e havia o facto de eu te amar

tinha brilho e uma risca cor de ferrugem, como se ali estivesse Saturno, the precious stone. Caminhava os pés na areia e ali, sem infinito, encontrou-a: so small, so brilliant...quase perdida.
Saturno, disse-lhe, tinha viajado desde um ponto distante para encontrar o calor do Sol.
Benedita abriu-se ao espanto, ali um pedacinho do Universo, de pó de estrelas a desejar ser encontrado.
Encostou o joelho ao areal tépido do fim de tarde e tocou-lhe, um pedacinho de si, tão doce.
Fechou-a na palma da mão pequena e consigo levou Saturno à beira do mar.

havia um barco e uma gaivota e havia eu no teu olhar
havia um sol que era magia. Dali voguei para te amar


quarta-feira, 19 de abril de 2017

se falasses como se me amasses


havia entre eles uma faísca, queriam-se quando os outros a sentiam.

Tinham acordado na caravela ao chegarem ao porto dos navegantes. Vestiam saudades, histórias de mares sagradas e de estranhas relações profanas.
- fundamentalmente amam-se memórias, disse-lhe. Quando corres, quando vibras acordas-me pensamentos já adormecidos e amo-te quando adormeces, junto a mim, no dealbar da manhã.
mordiscou-lhe o lóbulo da orelha enquanto lhe desnudava a nuca da cabeleira revolta. Havia um manso remanso no embate do casco no cais, ao sabor das águas calmas da enseada, que lhes embalava os corpos.
- Podes parar o tempo? Podes por favor pará-lo? enroscou-se-lhe no peito, rodou ligeiramente o rosto e suspirou, - se falasses como se me amasses...
 - Mas falo. Quando chego já sei que é o teu corpo que me espera e quando o sinto sei que existo.
beijou-o, sôfrega,as mãos ávidas do seu rosto. não queria aportar, aportar era chegar, pisar calçadas e perder o balanço das marés.
- Faz parar o tempo, meu amor, leva-me de volta ao mar.
Estranhou-lhe o gosto, o destino. Achava ele que era tempo de aportar. Apertou-a forte contra o peito.
- Se me falasses como se me amasses, repetiu-lhe. Acariciou-lhe o rosto e adormeceu.

faiscou na alba. Queriam-se quando os outros a sentiam.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

suave dança o feno


suave dança o feno  no meu corpo.
envolve-me de carícias quentes, breves línguas de fogo, que me afagam a pele.
toca-me o feno, romanceia-me murmúrios sedosos e deito-me nua. Escuto as papoilas, mariposas  dos prados de além. sorriem por entre o feno e vestem-me o corpo de diafános vermelhos.
suave dança o feno  no meu corpo, quando chegas.
despes-me das pétalas, deitas-te comigo e envolves-me de carícias.
agitam-se as papoilas quando me murmuras ternuras.
enche-se o horizonte de silêncios. suave dança o feno no meu corpo

segunda-feira, 10 de abril de 2017

instantes



sei que suspiras quando sentes que me encosto a ti
e depois, cerras os olhos

gosto das paisagens interiores.  gosto da tua,  como se fosse sempre sedução.

estava então de manhã
a areia quente tinha o calor do teu corpo no meu
e deslizou em mim quando a soltaste dos teus dedos
num instante..

instantes onde o orgasmo é eterno
instantes em que te amo
instantes em que não existo
instantes em que te quero

estava então o entardecer
chovias, apenas chovias.
abri a porta e encharquei-me de ti

sei que suspiras quando estás em mim


quinta-feira, 9 de março de 2017

o exótico aroma do funcho


caminhava no silêncio do trilho. soava ao restolhar leve do tojo e das urzes e ao exótico cheiro do funcho. Chegou a Duas Pedras. uma quase ausente fenda coloria de azul o vazio que as unia. Do lado da sombra descansou o olhar e respirou de novo lenta e tranquilamente. Passou por sob a fendida e incompleta abóboda de Duas Pedras rumo à luz.
- Onde vais? perguntou-lhe
olhou e viu as letras soltas das palavras que não sabia se queria dizer. - Para além, respondeu.
- ...além?!
pareciam desenhar ilhas, as aparentes palavras. - Perdi-me do pensamento. Sei-o mais além, disse.
- Tenho um talo de funcho. Queres?
- Humm...sabia-o sem nome, sei-lhe o aroma e o gosto.
Olhou-o. Pareceu-lhe bem. tinha um brilho forte e doce no castanho escuro do olhar. dedos esguios em pele morena e um talo de funcho mascado no canto dos lábios grossos.
Sentaram-se no degrau primeiro e mascaram funcho.
- dás-me a mão?
navegou por entre as ilhas das palavras que não sabia se queria dizer.
- quero ir contigo mais além.
deu-lhe a mão e escalaram os degraus cravados na pedra. Não havia porta, nem corredor. abriram o azul e entraram no pensamento.
Na pequena frincha do lenho da pedra, no topo dos degraus, cheira ao exótico aroma do funcho verde.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

o silêncio das horas quentes



fixou o olhar na  fina e curta haste de cana, pintada de verde garrafa a esmaecer e bailou os olhos no subtil balancear da cortina que as juntas de arame teciam entre todas as hastes. Quase  iguais gingavam desencontradas em danças lentas, no princípio das tardes, no silêncio dos dias quentes.

Benedita gostava de se sentar no beiral da porta, pernas além da cortina, no topo do patamar da escada de pedra onde o Sol espevitava toques quentes que se lançavam cortina adentro por entre os desencontrados pedaços de cana e lhe beijavam pedacinhos diferentes do corpo.  fugiam-lhe por entre os dedos aquelas borboletas de luz sempre que as procurava agarrar.  olhava então a dança lenta das canas e inventava batotas puxando com as mãos o tecido de arame soltando-o num balanço forte e denso que atropelava o silêncio da hora mais quente.
- Benedita - arrastava a avó em tom zangado e sonolento de uma sesta estragada -  já entraram os moscos...é no que dá andares com a canalha, nunca estás queda...deixa a cortina quietinha, Benedita..
e terminava num bocejo cabeceado enquanto se lhe fechavam os olhos para o resto da sesta. Sentada no mocho, que de Inverno a acachava à lareira, mastigava a saliva enquanto enxotava o mosco que lhe poisara na orelha "catano do mosco" ruminava e logo dormia.

...o silêncio da hora mais quente sentava-se do lado de fora da cortina verde de caniços. Benedita suspirou devagarinho, pensou as palavras não ditas, e disse: - vó, gosto de ti, estava a esquecer de te dizer.
os caniços verdes da cortina guardaram segredo. só o murmuram no silêncio das horas quentes.

domingo, 15 de janeiro de 2017

a gata parda


e tu que sabes dos dias ausentes de carícias se te ausentaste de mim?

sentou-se na borda do passeio. era um tempo em que ainda se podia sentar na borda do passeio. a saia de pregas finas, de tecido a perder o engomado, resvalou-lhe pelas coxas que envolveu nos braços ao encostar o rosto nos joelhos. Ficou-lhe o olhar perdido no empedrado, ao som das caricas jogadas mais acima na borda do passeio, enquanto laboreava bolhinhas de saliva que se iam dissolvendo, como os sonhos.

aconchegou-a  o calor do sol, sem ser ardente. rodou  o rosto e deixou-se apenas a mirar bolhinhas de saliva a lampejar, como estrelas cadentes. Na berma do outro lado olhava-a a gata parda. Benedita fez uma grande bolha de saliva que se desfez em plof, e a gata parda lambiscou-lhe os joelhos mesmo acima das meias xadrez.  Benedita espreguiçou-se, igual à gata, lânguida e sonolenta.

o rapaz da franja escorrida perguntou-lhe: posso fazer bolhinhas contigo?
- Sim, podes, disse Benedita. Esta é  a gata parda, sabes.
E fizeram bolhinhas de cuspo ao calor médio da tarde, até não apetecer mais

e tu que sabes dos dias ausentes de carícias se te ausentaste de mim?
Ah! estou na berma do passeio, com a gata parda.