quinta-feira, 9 de março de 2017

o exótico aroma do funcho


caminhava no silêncio do trilho. soava ao restolhar leve do tojo e das urzes e ao exótico cheiro do funcho. Chegou a Duas Pedras. uma quase ausente fenda coloria de azul o vazio que as unia. Do lado da sombra descansou o olhar e respirou de novo lenta e tranquilamente. Passou por sob a fendida e incompleta abóboda de Duas Pedras rumo à luz.
- Onde vais? perguntou-lhe
olhou e viu as letras soltas das palavras que não sabia se queria dizer. - Para além, respondeu.
- ...além?!
pareciam desenhar ilhas, as aparentes palavras. - Perdi-me do pensamento. Sei-o mais além, disse.
- Tenho um talo de funcho. Queres?
- Humm...sabia-o sem nome, sei-lhe o aroma e o gosto.
Olhou-o. Pareceu-lhe bem. tinha um brilho forte e doce no castanho escuro do olhar. dedos esguios em pele morena e um talo de funcho mascado no canto dos lábios grossos.
Sentaram-se no degrau primeiro e mascaram funcho.
- dás-me a mão?
navegou por entre as ilhas das palavras que não sabia se queria dizer.
- quero ir contigo mais além.
deu-lhe a mão e escalaram os degraus cravados na pedra. Não havia porta, nem corredor. abriram o azul e entraram no pensamento.
Na pequena frincha do lenho da pedra, no topo dos degraus, cheira ao exótico aroma do funcho verde.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

o silêncio das horas quentes



fixou o olhar na  fina e curta haste de cana, pintada de verde garrafa a esmaecer e bailou os olhos no subtil balancear da cortina que as juntas de arame teciam entre todas as hastes. Quase  iguais gingavam desencontradas em danças lentas, no princípio das tardes, no silêncio dos dias quentes.

Benedita gostava de se sentar no beiral da porta, pernas além da cortina, no topo do patamar da escada de pedra onde o Sol espevitava toques quentes que se lançavam cortina adentro por entre os desencontrados pedaços de cana e lhe beijavam pedacinhos diferentes do corpo.  fugiam-lhe por entre os dedos aquelas borboletas de luz sempre que as procurava agarrar.  olhava então a dança lenta das canas e inventava batotas puxando com as mãos o tecido de arame soltando-o num balanço forte e denso que atropelava o silêncio da hora mais quente.
- Benedita - arrastava a avó em tom zangado e sonolento de uma sesta estragada -  já entraram os moscos...é no que dá andares com a canalha, nunca estás queda...deixa a cortina quietinha, Benedita..
e terminava num bocejo cabeceado enquanto se lhe fechavam os olhos para o resto da sesta. Sentada no mocho, que de Inverno a acachava à lareira, mastigava a saliva enquanto enxotava o mosco que lhe poisara na orelha "catano do mosco" ruminava e logo dormia.

...o silêncio da hora mais quente sentava-se do lado de fora da cortina verde de caniços. Benedita suspirou devagarinho, pensou as palavras não ditas, e disse: - vó, gosto de ti, estava a esquecer de te dizer.
os caniços verdes da cortina guardaram segredo. só o murmuram no silêncio das horas quentes.

domingo, 15 de janeiro de 2017

a gata parda


e tu que sabes dos dias ausentes de carícias se te ausentaste de mim?

sentou-se na borda do passeio. era um tempo em que ainda se podia sentar na borda do passeio. a saia de pregas finas, de tecido a perder o engomado, resvalou-lhe pelas coxas que envolveu nos braços ao encostar o rosto nos joelhos. Ficou-lhe o olhar perdido no empedrado, ao som das caricas jogadas mais acima na borda do passeio, enquanto laboreava bolhinhas de saliva que se iam dissolvendo, como os sonhos.

aconchegou-a  o calor do sol, sem ser ardente. rodou  o rosto e deixou-se apenas a mirar bolhinhas de saliva a lampejar, como estrelas cadentes. Na berma do outro lado olhava-a a gata parda. Benedita fez uma grande bolha de saliva que se desfez em plof, e a gata parda lambiscou-lhe os joelhos mesmo acima das meias xadrez.  Benedita espreguiçou-se, igual à gata, lânguida e sonolenta.

o rapaz da franja escorrida perguntou-lhe: posso fazer bolhinhas contigo?
- Sim, podes, disse Benedita. Esta é  a gata parda, sabes.
E fizeram bolhinhas de cuspo ao calor médio da tarde, até não apetecer mais

e tu que sabes dos dias ausentes de carícias se te ausentaste de mim?
Ah! estou na berma do passeio, com a gata parda.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

sopro cálido

hoje quero-te.
estava cinzento o dia, pegava-se a cor ao corpo e aos cabelos. levei-te comigo para além da porta. a árvore grande gemia com o sincelo, tão belo e tão frio. segredaste-me em sopro cálido "quero-te" e encontrei-te, nu e quente no meu corpo. escorregámos nas folhas húmidas da manhã. o meu ventre junto ao teu, a tua boca ávida no meu rosto, na minha boca. levaste-me dentro de ti, pelo trilho do frio.
segredaste.me em sopro cálido "querida". a árvore grande agitou os ramos e vestimo-nos de sincelo. e disseste "és bela". Foi quando me desnudei, a alma purgada do frio, o teu coração a bater no meu.
hoje quero-te e quero-te  ao raiar de cada manhã. o teu olhar no meu, o meu ventre junto ao teu.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

improváveis encontros


e ali estava como se fosse só, no momento dos improváveis encontros.
havia uma réstea de estrelas, a desafiar a claridade que emergia de leste, que lhe tremeluzia no rosto. E sentia-lhe os beijos com sabor de lábios, húmidos apenas húmidos. E quis-lhe os lábios, nos seus, húmidos, apenas húmidos.
tremeluziram-lhe estrelas no olhar quando o mar lhe invadiu o corpo, a alma e havia beijos húmidos na sua pele.
Amava-o no momento dos improváveis encontros com beijos húmidos, apenas húmidos. 
E de leste raiava a manhã.

o lusco e o fusco e o tempo

era um riscado baço de azul, vermelho e verde. sobrepunha-se num pregueado semi-rígido da saita curta, que acima dos  joelhos teimava em fazer rugas que desmanchavam as pregas tão bem passadas pela mãe. quase rés-vés ao chão, gastos os elásticos, as meias atrapalhavam-lhe o jogo de se equilibrar nas juntas do empedrado do adro e por mais que as puxasse tombavam bêbadas e engelhadas sobre os sapatos de atilhos.
Estava vestida de Outono, dos dias em que começava a escola, das manhãs húmidas e das tardes soalheiras. vestir-se de Outono era parecer-se a um desconfortável cabide por onde escorregam as saias e os casacos em desacerto: um lado  mais puxado para cima para deixar entrar o fresco das tardes quentes e o outro a descair para lhe tapar as pernitas nos fins de tarde das sombras gigantes que subiam a rua desde o princípio da estrada e adormeciam no adro.
e fazia-se o lusco-fusco, uma ténue luz do dia que desafiava o anoitecer, que lhe refrescava os braços e as pernas e a impelia a percorrer todas as linhas que uniam as grandes lajes de pedra, até que estas se perdiam no escuro do princípio da noite. E Benedita ia para casa, precisamente quando  iam chegando as pessoas à igreja para rezar a novena, na hora do lusco-fusco escuro quando os rostos já se não vêem e a saia de pregas  de baços vermelhos, azuis e verdes escurecia.
Fazia lusco-fusco de um fim de tarde de Outono. Benedita percorria ligeira, em equilíbrio incerto, as linhas paralelas e transversais do lajedo, num labiríntico enredado de caminhos, olhando inquieta para o horizonte da estrada de onde caminhavam sombras que ali haviam de adormecer. Já se lhe sumia o brilho do olhar no cinzento do fusco, e o riscado da saia ia perdendo a cor quando na encuzilhada da linha da laje do meio deu de caras com o tronco da cerejeira. Brilhou-lhe o olhar, despiu-se do Outono pulou a sombra dos montes e entrou em Tempo.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

a madrugada



- Meu amor...
- Meu amor...
as tuas mãos teciam ternuras tantas no meu corpo. cheirava aos cheiros da terra, quando a terra acorda. E nesse instante do silêncio dos bichos, do sopro das  brisas frescas, amaste-me para sempre no breve  tempo da madrugada.