sábado, 7 de outubro de 2017

cacimbo(s)

vestia cacimbo, uma humidade quase quente que os rios largavam no entardecer dos dias tórridos. E assim passeava o corpo, confundindo os olhares de quem a olhava.
Mas a ele queria.
A cada passo sentia-lhe o arfar, a sofreguidão do toque, as coxas presas num enlace forte, a língua sequiosa a seguir-lhe o contorno do ombro, o côncavo do pescoço, as mãos em voo sobre as nádegas...ondearam-se-lhe as ancas, a recortar redondos profundos no calor desenhado na paisagem. Seguiam-na olhares sedentos, que em seco engoliam como se do cacimbo se saciassem.
Mas a ele queria.
ouviu-lhe o som grave e rouco da voz "sabes-me a chuva" dizia-lhe, e bebia nela rios.
Passou a palma da mão por sobre os seios, palpitava-lhe o coração que a ele queria. Havia cacimbo, uma humidade quase quente que dele trazia

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

tepidez

caminhou no silêncio. seguiu o trilho amarelo, da terra seca e compacta. os passos soavam compassados, cantavam ritmos na viagem. ladeavam-na muretes meios desfeitos  de empedrado granítico pejados de silvas de onde pendiam amoras.
Tocava-lhe quente o sol. acoitou-se nas sombras de odor às maçãs bordejantes do caminho. eram esparsas mas tão frescas que a pele húmida se lhe vestiu de folhas. E ali colheu amoras.
Mais além ele esperava-a.
Despiu-se das folhas. os campos luziam entre sombras de verde escuro e dourados fortes. O Sol fugiu para além das pedras dos muros distantes. E ali abraçou-se a ele. Tocava-lhe quente, a pele húmida despida de sombras.
Aninhou-se-lhe no peito, as bocas a saberem a amoras.
Doce era a tepidez do fim do dia.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

um beijo tresmalhado

não sei meu amor, por onde anda o meu desejo.
sei que me queima a boca
sei que me arde no peito

e sei meu amor, que me queimam os teus beijos
os teus olhos nos meus olhos
sôfrega a minha, na tua boca,
a tocar-te, quase sem jeito

e logo meu amor, quando  em feno  meus cabelos entrelaças
desalinhadas as vestes no meu corpo,
guardo-te no que sei do meu desejo
um beijo tresmalhado no meu ventre
um suspiro, um canto de sedução
onde sempre me afagas com paixão



terça-feira, 18 de julho de 2017

ternos os teus dedos

 sossega-se o meu no teu olhar quando o meu corpo quente e molhado me esmaga de paixão e delicados os teus dedos viajam à flor da minha pele.
-Amo-te - estremecem as palavras nos meus lábios - toca-me doce...
viajam ternos os teus dedos no meu dorso e o meu rosto descansa no teu peito
- Segui um pássaro para te encontrar - dizes-me.
desnudas-me a face dos cabelos húmidos, acaricias o lóbulo da minha orelha e sopras de mansinho no meu olhar
- Voa comigo - pedes-me - Perde-te comigo.
 Desassossega-se o teu olhar, inquietas-me e logo me invades de tamanha doçura que se sossega em ti o meu olhar.
- Mando-te um pássaro todos os dias - digo-te.

no beiral chilreou o estornimho preto.


https://www.youtube.com/watch?v=bU_bGYaa3FY










terça-feira, 20 de junho de 2017

desenha-me beijos


havia uma dança no nosso caminhar, um bailar de ancas e de rodeios. falávamos com palavras tão mordidas de anseios.
o rio estava escuro e brilhava nele o luar.
tocaste-me a cintura por entre os desníveis das  ameias, e disseste-me ao ouvido "para te sentires segura" ...e eu que queria navegar na lua derramada nas águas escuras.
dei-te a mão no breve instante em que me elevaste para logo me poisares na sombra da árvore grande.
foi quando te rocei o lóbulo da orelha e te segredei "desenha-me beijos"

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ardes-me

sinto-te
ardes-me quando não me tocas e beijo-te
oh! como te beijo
se eu soubesse de mim, se me perdesse em ti, de ti
meu doce amor

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Saturno: the precious stone


havia um barco e uma gaivota e havia o som do mar.
Havia luz e havia vento e eu mergulhei no teu olhar
havia o cheiro a maresia e nuvens brancas a passar
havia um sol que era magia e havia o facto de eu te amar

tinha brilho e uma risca cor de ferrugem, como se ali estivesse Saturno, the precious stone. Caminhava os pés na areia e ali, sem infinito, encontrou-a: so small, so brilliant...quase perdida.
Saturno, disse-lhe, tinha viajado desde um ponto distante para encontrar o calor do Sol.
Benedita abriu-se ao espanto, ali um pedacinho do Universo, de pó de estrelas a desejar ser encontrado.
Encostou o joelho ao areal tépido do fim de tarde e tocou-lhe, um pedacinho de si, tão doce.
Fechou-a na palma da mão pequena e consigo levou Saturno à beira do mar.

havia um barco e uma gaivota e havia eu no teu olhar
havia um sol que era magia. Dali voguei para te amar