terça-feira, 20 de junho de 2017

desenha-me beijos


havia uma dança no nosso caminhar, um bailar de ancas e de rodeios. falávamos com palavras tão mordidas de anseios.
o rio estava escuro e brilhava nele o luar.
tocaste-me a cintura por entre os desníveis das  ameias, e disseste-me ao ouvido "para te sentires segura" ...e eu que queria navegar na lua derramada nas águas escuras.
dei-te a mão no breve instante em que me elevaste para logo me poisares na sombra da árvore grande.
foi quando te rocei o lóbulo da orelha e te segredei "desenha-me beijos"

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ardes-me

sinto-te
ardes-me quando não me tocas e beijo-te
oh! como te beijo
se eu soubesse de mim, se me perdesse em ti, de ti
meu doce amor

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Saturno: the precious stone


havia um barco e uma gaivota e havia o som do mar.
Havia luz e havia vento e eu mergulhei no teu olhar
havia o cheiro a maresia e nuvens brancas a passar
havia um sol que era magia e havia o facto de eu te amar

tinha brilho e uma risca cor de ferrugem, como se ali estivesse Saturno, the precious stone. Caminhava os pés na areia e ali, sem infinito, encontrou-a: so small, so brilliant...quase perdida.
Saturno, disse-lhe, tinha viajado desde um ponto distante para encontrar o calor do Sol.
Benedita abriu-se ao espanto, ali um pedacinho do Universo, de pó de estrelas a desejar ser encontrado.
Encostou o joelho ao areal tépido do fim de tarde e tocou-lhe, um pedacinho de si, tão doce.
Fechou-a na palma da mão pequena e consigo levou Saturno à beira do mar.

havia um barco e uma gaivota e havia eu no teu olhar
havia um sol que era magia. Dali voguei para te amar


quarta-feira, 19 de abril de 2017

se falasses como se me amasses


havia entre eles uma faísca, queriam-se quando os outros a sentiam.

Tinham acordado na caravela ao chegarem ao porto dos navegantes. Vestiam saudades, histórias de mares sagradas e de estranhas relações profanas.
- fundamentalmente amam-se memórias, disse-lhe. Quando corres, quando vibras acordas-me pensamentos já adormecidos e amo-te quando adormeces, junto a mim, no dealbar da manhã.
mordiscou-lhe o lóbulo da orelha enquanto lhe desnudava a nuca da cabeleira revolta. Havia um manso remanso no embate do casco no cais, ao sabor das águas calmas da enseada, que lhes embalava os corpos.
- Podes parar o tempo? Podes por favor pará-lo? enroscou-se-lhe no peito, rodou ligeiramente o rosto e suspirou, - se falasses como se me amasses...
 - Mas falo. Quando chego já sei que é o teu corpo que me espera e quando o sinto sei que existo.
beijou-o, sôfrega,as mãos ávidas do seu rosto. não queria aportar, aportar era chegar, pisar calçadas e perder o balanço das marés.
- Faz parar o tempo, meu amor, leva-me de volta ao mar.
Estranhou-lhe o gosto, o destino. Achava ele que era tempo de aportar. Apertou-a forte contra o peito.
- Se me falasses como se me amasses, repetiu-lhe. Acariciou-lhe o rosto e adormeceu.

faiscou na alba. Queriam-se quando os outros a sentiam.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

suave dança o feno


suave dança o feno  no meu corpo.
envolve-me de carícias quentes, breves línguas de fogo, que me afagam a pele.
toca-me o feno, romanceia-me murmúrios sedosos e deito-me nua. Escuto as papoilas, mariposas  dos prados de além. sorriem por entre o feno e vestem-me o corpo de diafános vermelhos.
suave dança o feno  no meu corpo, quando chegas.
despes-me das pétalas, deitas-te comigo e envolves-me de carícias.
agitam-se as papoilas quando me murmuras ternuras.
enche-se o horizonte de silêncios. suave dança o feno no meu corpo

segunda-feira, 10 de abril de 2017

instantes



sei que suspiras quando sentes que me encosto a ti
e depois, cerras os olhos

gosto das paisagens interiores.  gosto da tua,  como se fosse sempre sedução.

estava então de manhã
a areia quente tinha o calor do teu corpo no meu
e deslizou em mim quando a soltaste dos teus dedos
num instante..

instantes onde o orgasmo é eterno
instantes em que te amo
instantes em que não existo
instantes em que te quero

estava então o entardecer
chovias, apenas chovias.
abri a porta e encharquei-me de ti

sei que suspiras quando estás em mim


quinta-feira, 9 de março de 2017

o exótico aroma do funcho


caminhava no silêncio do trilho. soava ao restolhar leve do tojo e das urzes e ao exótico cheiro do funcho. Chegou a Duas Pedras. uma quase ausente fenda coloria de azul o vazio que as unia. Do lado da sombra descansou o olhar e respirou de novo lenta e tranquilamente. Passou por sob a fendida e incompleta abóboda de Duas Pedras rumo à luz.
- Onde vais? perguntou-lhe
olhou e viu as letras soltas das palavras que não sabia se queria dizer. - Para além, respondeu.
- ...além?!
pareciam desenhar ilhas, as aparentes palavras. - Perdi-me do pensamento. Sei-o mais além, disse.
- Tenho um talo de funcho. Queres?
- Humm...sabia-o sem nome, sei-lhe o aroma e o gosto.
Olhou-o. Pareceu-lhe bem. tinha um brilho forte e doce no castanho escuro do olhar. dedos esguios em pele morena e um talo de funcho mascado no canto dos lábios grossos.
Sentaram-se no degrau primeiro e mascaram funcho.
- dás-me a mão?
navegou por entre as ilhas das palavras que não sabia se queria dizer.
- quero ir contigo mais além.
deu-lhe a mão e escalaram os degraus cravados na pedra. Não havia porta, nem corredor. abriram o azul e entraram no pensamento.
Na pequena frincha do lenho da pedra, no topo dos degraus, cheira ao exótico aroma do funcho verde.